Era de se notar que acabara de acordar, cara amassada, cabelo desgrenhado. Ainda sentia bem os efeitos do álcool, principalmente pela cabeça latejante. Ao seu lado ainda dorme a companheira de longa data. Não contínua, fato que eles preferem não alardear mas os mais próximos sabem.
O motivo da ressaca era especial, não havia sido apenas uma típica saída de sábado à noite. Havia voltado do seu baile de formatura. Seis anos depois (era pra terem sido cinco mas sabe Cálculo II, né?) o fim estava sacramentado. Difícil atinar com o fato.
A maioria de seus amigos voltaria pra suas respectivas cidades, ele também, muito provavelmente. Todos agora não mais acadêmicos/estagiários e sim com uma placa de 'DESEMPREGADO' pendurada no pescoço. Mundo cruel. Claro que não pensara nisso durante a festa apesar de ser um pensamento recorrente nos últimos tempos, todas as vezes sendo intimado a calar-se por seus amigos.
Não. durante a festa realmente não precisou pensar naquilo. Foram tantas emoções (crédito a Roberto Carlos), toda a família reunida, os amigos, alguns vindos de muito longe, o discurso que ele planejara há tanto tempo e que tinha saído fantástico (em sua nada parcial opinião) e por último mas nem um pouco menos importante: o champagne (na verdade o espumante, já que champagne é só o vinho espumante vindo do vale de... hum... vamos falar champagne mesmo, bem mais fácil).
Porém, agora era a hora das escolhas. Depois de quatro anos de idas-e-vindas havia retornado às graças da que dormia ao seu lado. Só que pequeno detalhe, ela não tinha se formado ainda. E só se formaria no final do ano seguinte. Sem mencionar o fato dela também não ser local, nem do mesmo lugar que ele.
Ainda tinha que pensar também na opressão tácita que seria voltar a morar com a família depois de seis longos anos.
Ia ser difícil passar para a rotina da vida brasileira média. Oito às cinco, happy-hour na sexta e praia no feriado. Jura? Tudo isso mesmo? Não apetecia nem um pouco.
Incrível como ele tinha tido tanto tempo pra pensar nestas coisas, pensado nelas e mesmo assim não havia chegado a nenhuma conclusão. Encruzilhada. Momento chave da vida.
Mas obviamente não seria às seis e meia da manhã, mamado que ele resolveria algo. Ainda havia tempo, ah o tão elusivo tempo. Ou pelo menos assim ele pensava.
Virou-se para o rosto angelical deitado, de olhos fechados a seu lado. Esboçou um mínimo sorriso, deu um paternal beijo na testa, virou-se e dormiu.
domingo, 11 de maio de 2008
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Sobrou Pra Mim
Putz, sobrou pra mim. Foi o que ele pensou. Estava com aquela sensação chata de quem nada de errado havia feito porém sentia que indubitavelmente seria apontado como o errado ou algo similar. Meio que quando todos na sala de aula estão a conversar mas você pressente que na hora da bronca, o escolhido pelo professor será você. Ou quando o time inteiro não joga nada só que você escolheu bem aquele jogo pra furar a bola que interceptaria o contra-ataque mortal.
Mas o que levava nosso protagonista a ficar assim? Vejamos, com as palavras do próprio.
É, legal isso, pensei que só eu sabia desse negócio e agora tá todo mundo sabendo. O pior é que ELA vai achar que fui eu, afinal teoricamente só eu estava presente... mas será mesmo? Talvez alguém tenha visto, ou ela tenha contado pra mais alguém...
O fato é que ela deve estar me culpando mesmo, afinal me trata como lixo depois que a informação correu, independentemente dela ter contado a outra pessoa, quem ficou marcado como falastrão fui eu.
Pensa, pensa. Que farei? Posso tentar malandramente desmentir aos poucos... não, muito óbvio, além de ser praticamente ratificar o ato desmenti-lo. Posso assumir a culpa, alegando que contei pra alguém em sigilo e esse outro alguém que soltou a informação. Boa, agora eu ia arrastar mais um para o buraco, seria muito legal da minha parte. Ou poderia assumir a culpa, mesmo sem ter feito nada. Opa, essa parece até agora a mais razoável em termos conseqüenciais, mesmo sendo a mais ridícula em termos de verdade. Posso negar até a morte veementemente com a espada da verdade ao meu lado. Há, seria estúpido isso mesmo sendo o mais certo.
Ou posso não fazer nada. É, parece razoável. Mesmo que minha vontade irrefreável de mostrar a pra todo mundo que não sou eu o filho-da-mãe. Aliás, que mania idiota essa de querer se justificar, né? Ninguém paga minhas contas, que aliás não estão nem um pouco baratas, maldito carnaval.
Pronto, é isso mesmo, não farei nada.
Mas pensando bem...
Mas o que levava nosso protagonista a ficar assim? Vejamos, com as palavras do próprio.
É, legal isso, pensei que só eu sabia desse negócio e agora tá todo mundo sabendo. O pior é que ELA vai achar que fui eu, afinal teoricamente só eu estava presente... mas será mesmo? Talvez alguém tenha visto, ou ela tenha contado pra mais alguém...
O fato é que ela deve estar me culpando mesmo, afinal me trata como lixo depois que a informação correu, independentemente dela ter contado a outra pessoa, quem ficou marcado como falastrão fui eu.
Pensa, pensa. Que farei? Posso tentar malandramente desmentir aos poucos... não, muito óbvio, além de ser praticamente ratificar o ato desmenti-lo. Posso assumir a culpa, alegando que contei pra alguém em sigilo e esse outro alguém que soltou a informação. Boa, agora eu ia arrastar mais um para o buraco, seria muito legal da minha parte. Ou poderia assumir a culpa, mesmo sem ter feito nada. Opa, essa parece até agora a mais razoável em termos conseqüenciais, mesmo sendo a mais ridícula em termos de verdade. Posso negar até a morte veementemente com a espada da verdade ao meu lado. Há, seria estúpido isso mesmo sendo o mais certo.
Ou posso não fazer nada. É, parece razoável. Mesmo que minha vontade irrefreável de mostrar a pra todo mundo que não sou eu o filho-da-mãe. Aliás, que mania idiota essa de querer se justificar, né? Ninguém paga minhas contas, que aliás não estão nem um pouco baratas, maldito carnaval.
Pronto, é isso mesmo, não farei nada.
Mas pensando bem...
sexta-feira, 7 de março de 2008
Uma Outra Viagem de Ônibus
Lembrando que é pra ler o post de baixo antes desse
****
Outra viagem, mais uma vez vou ficar nervosa. Sempre sento ao lado de tarados e pior, velhos tarados. Parece que atraio, ímã de tarados viajantes.
Vamos ver, vamos ver... 38, 38, cadê você. Ah não, esse daí tem aquela carinha de ser dos que ficam babando no decote.
Senta-se. Nota a empolgação do senhor ao seu lado quando ela relutantemente senta.
- Juro por Deus que a primeira gracinha deste tiozinho eu mudo de lugar, não agüento mais essas viagens com esses babões. - raciocinou ela.
Como se tivesse ouvido o pensamento da garota, o velho, malandramente levantou a barrinha que faz a divisa entre as poltronas.
Foi a gota d'água. De um súbito levantou-se, pegou a bolsa e começou a andar pelo corredor.
Agitada, procurava avidamente algum lugar vago. De repente notou uma poltrona livre, era no corredor. Antes de sentar, olhou para o ocupante da poltrona da janela, seria inútil ter trocado de lugar para sentar com outro tarado.
Talvez a viagem não fosse ser tão ruim assim, pensou a garota. Bonitinho, cabelo meio ensebado mas ela gosta de cabelos grandes, melhor não reclamar muito, comparado com o tiozinho... Ah, eu conheço ele, ele deve fazer administração ou economia, vi ele com os meninos da FEA.
Putz, lembrei. A vaca da Andréa andava com eles sempre, sempre se jogando nele, tomara que eles não tenham ficado, nojo.
Sentou, percebendo que o rapaz meio que se empertigava... é, talvez não tenha sido má idéia o decote, pensou, congratulando-se.
- Meu, tá chovendo de novo. São Paulo vai encher que nem quinta feira, ô cidadezinha, viu? - falou o rapaz.
Ai, que que eu respondo? Não achei que ele já fosse puxar conversa assim, tão cedo.
De modo automático, assentiu com a cabeça, sentindo-se uma débil mental. É sempre assim, toda vez que eu quero ser simpática pareço uma robô. Eu me odeio, profundamente.
- Tá frio, né? Quer que desligue o ar-condicionado?
Ai, Deus. Bonitinho ele puxar conversa mas bem que podia ser com um outro assunto, né? Sei lá o que falar. E novamente, como por um impulso fortíssimo, deixou os gestos falarem por ela.
Putz, ele deve achar que sou muda ou que tenho problema mental. Vou fingir que estou dormindo, um pouquinho, só pra depois eu puxar uma conversa.
Fica imóvel por alguns minutos, pensando já na conversa futura. Um súbito estrondo a faz pular. Sai do seu suposto estado de sono e vira-se, encarando o autor do barulho.
Ele derrubou o celular de propósito, certeeeza. Que bonitinho! E que malandrinho também, insistente.
- Acordei você? Perdão. - Não posso dizer que ele não tem iniciativa. Papinho fraco, mas ele é tão bonito!
- Imagine, eu não tava conseguindo dormir. Você também não consegue dormir em ônibus? - Pronto, uma CONVERSA entre pessoas normais.
- Olha, antigamente eu dormia com muita facilidade só que de uns tempos pra cá, inexplicavelmente, não consigo. Estranho, né? - que conversinha besta essa minha, pensou ele.
- Arrã. - Eu e meus monossílabos, acho que me odeio mais agora.
Vou ter que virar o jogo então, me sinto obrigada. Lá vai:
- Já te vi lá na faculdade, sabia?
- É mesmo? Mas que mal-educada, hein? Nem deu oi. E o que você faz?
Um engraçadinho, então. Gosto de engraçadinhos. Vou falar que faço enfermagem dum jeito bem sexy, homens adoram enfermeiras.
- Enfermagem. Você?
- Economia. Ah, você conhece a Andréa do 3º ano?
Economia, sabia! E conheço sim, essa nojenta, tomara DEUS vocês não tenham ficado.
- Conheço sim - usou a sua voz mais fria. Ele percebeu, tá na cara.
Espertamente, o rapaz se apresenta. E procede a uma conversa simpática, engraçada. Gostei dele pensa a garota. Fala mais que a boca, claro, mas é simpático, educado, e bela boca ele tem, gostei.
- Não, mas aí teve uma vez...
É, tá na hora dele parar com a conversinha mole já.
Ele não parou. A oportunidade escorreu por entre os dedos e ambos foram dormir.
Ela, frustradíssima. Nunca mais deixo esses homens falarem tanto, diabos.
****
Desce do ônibus, vai rapidinho pegar as malas, pra evitar o constrangimento de falar com ele. Pega as malas, pronta para ir embora.
Dá um último olhar pra trás, vê a cara dele de triste.
- Quer saber?! - anda decididamente até ele, dá um leve toque no ombro e o beija, palavras não são necessárias.
- Mas... mas....
- Shhhh. Você falou de menos quando precisava falar, agora continua errando no timing. - Mexe na bolsa, procurando uma caneta pra anotar o telefone na mão dele, acha o batom sem querer.
- Huuum, aposto que ele vai se adorar se eu escrever com o batom, como sou boba, né.
Claro, escreve com o batom.
Dá um beijo de despedida e vai.
****
Outra viagem, mais uma vez vou ficar nervosa. Sempre sento ao lado de tarados e pior, velhos tarados. Parece que atraio, ímã de tarados viajantes.
Vamos ver, vamos ver... 38, 38, cadê você. Ah não, esse daí tem aquela carinha de ser dos que ficam babando no decote.
Senta-se. Nota a empolgação do senhor ao seu lado quando ela relutantemente senta.
- Juro por Deus que a primeira gracinha deste tiozinho eu mudo de lugar, não agüento mais essas viagens com esses babões. - raciocinou ela.
Como se tivesse ouvido o pensamento da garota, o velho, malandramente levantou a barrinha que faz a divisa entre as poltronas.
Foi a gota d'água. De um súbito levantou-se, pegou a bolsa e começou a andar pelo corredor.
Agitada, procurava avidamente algum lugar vago. De repente notou uma poltrona livre, era no corredor. Antes de sentar, olhou para o ocupante da poltrona da janela, seria inútil ter trocado de lugar para sentar com outro tarado.
Talvez a viagem não fosse ser tão ruim assim, pensou a garota. Bonitinho, cabelo meio ensebado mas ela gosta de cabelos grandes, melhor não reclamar muito, comparado com o tiozinho... Ah, eu conheço ele, ele deve fazer administração ou economia, vi ele com os meninos da FEA.
Putz, lembrei. A vaca da Andréa andava com eles sempre, sempre se jogando nele, tomara que eles não tenham ficado, nojo.
Sentou, percebendo que o rapaz meio que se empertigava... é, talvez não tenha sido má idéia o decote, pensou, congratulando-se.
- Meu, tá chovendo de novo. São Paulo vai encher que nem quinta feira, ô cidadezinha, viu? - falou o rapaz.
Ai, que que eu respondo? Não achei que ele já fosse puxar conversa assim, tão cedo.
De modo automático, assentiu com a cabeça, sentindo-se uma débil mental. É sempre assim, toda vez que eu quero ser simpática pareço uma robô. Eu me odeio, profundamente.
- Tá frio, né? Quer que desligue o ar-condicionado?
Ai, Deus. Bonitinho ele puxar conversa mas bem que podia ser com um outro assunto, né? Sei lá o que falar. E novamente, como por um impulso fortíssimo, deixou os gestos falarem por ela.
Putz, ele deve achar que sou muda ou que tenho problema mental. Vou fingir que estou dormindo, um pouquinho, só pra depois eu puxar uma conversa.
Fica imóvel por alguns minutos, pensando já na conversa futura. Um súbito estrondo a faz pular. Sai do seu suposto estado de sono e vira-se, encarando o autor do barulho.
Ele derrubou o celular de propósito, certeeeza. Que bonitinho! E que malandrinho também, insistente.
- Acordei você? Perdão. - Não posso dizer que ele não tem iniciativa. Papinho fraco, mas ele é tão bonito!
- Imagine, eu não tava conseguindo dormir. Você também não consegue dormir em ônibus? - Pronto, uma CONVERSA entre pessoas normais.
- Olha, antigamente eu dormia com muita facilidade só que de uns tempos pra cá, inexplicavelmente, não consigo. Estranho, né? - que conversinha besta essa minha, pensou ele.
- Arrã. - Eu e meus monossílabos, acho que me odeio mais agora.
Vou ter que virar o jogo então, me sinto obrigada. Lá vai:
- Já te vi lá na faculdade, sabia?
- É mesmo? Mas que mal-educada, hein? Nem deu oi. E o que você faz?
Um engraçadinho, então. Gosto de engraçadinhos. Vou falar que faço enfermagem dum jeito bem sexy, homens adoram enfermeiras.
- Enfermagem. Você?
- Economia. Ah, você conhece a Andréa do 3º ano?
Economia, sabia! E conheço sim, essa nojenta, tomara DEUS vocês não tenham ficado.
- Conheço sim - usou a sua voz mais fria. Ele percebeu, tá na cara.
Espertamente, o rapaz se apresenta. E procede a uma conversa simpática, engraçada. Gostei dele pensa a garota. Fala mais que a boca, claro, mas é simpático, educado, e bela boca ele tem, gostei.
- Não, mas aí teve uma vez...
É, tá na hora dele parar com a conversinha mole já.
Ele não parou. A oportunidade escorreu por entre os dedos e ambos foram dormir.
Ela, frustradíssima. Nunca mais deixo esses homens falarem tanto, diabos.
****
Desce do ônibus, vai rapidinho pegar as malas, pra evitar o constrangimento de falar com ele. Pega as malas, pronta para ir embora.
Dá um último olhar pra trás, vê a cara dele de triste.
- Quer saber?! - anda decididamente até ele, dá um leve toque no ombro e o beija, palavras não são necessárias.
- Mas... mas....
- Shhhh. Você falou de menos quando precisava falar, agora continua errando no timing. - Mexe na bolsa, procurando uma caneta pra anotar o telefone na mão dele, acha o batom sem querer.
- Huuum, aposto que ele vai se adorar se eu escrever com o batom, como sou boba, né.
Claro, escreve com o batom.
Dá um beijo de despedida e vai.
Uma Viagem de Ônibus
Finalmente! Finalmente acontecera.
Três anos e meio depois, depois de 40 ou 50 viagens de horas e horas, ele sentara-se ao lado de uma mulher bonita, bonita não, linda, num ônibus.
Nesta altura ele já estava resignado a agüentar velhos malcheirosos, velhinhas algo babonas e gordinhos que não cabendo na própria poltrona usavam a poltrona vizinha como assento.
Depois de tão longo tempo de frustrações ele nem esperava mais nada. Quando aquela magnífica loura passou por ele no corredor, ele se contentou apenas em admirá-la, nem cogitou a possibilidade dela sentar ao seu lado. Seria bom demais para ser verdade.
Estava sentado quando a viu passar. Depois do motorista dar as instruções de praxe, sentiu-se feliz por não haver ninguém ao seu lado no banco. Uma viagem espaçosa, pensou.
Qual não foi sua surpresa quando a garota que havia atiçado a imaginação dos passageiros do sexo masculino passou por ele novamente, foi até a frente do ônibus, pegou um copo d'água e ao voltar, sentou-se ao seu lado.
Devia estar no banheiro, conjecturou.
Porém a questão do momento era: o que fazer. Depois de tantas expectativas o momento havia chegado. Desafortunadamente não tinha nada preparado para a ocasião. Teria que improvisar.
Não era um mestre da arte da corte mas também não era um novato, tinha suas armas.
Antes de iniciar o approach observou bem a moça. Loura, olhos castanhos, nariz um tanto arrebitado, lábios à la Jolie. Usava uma blusa branca decotada que valorizava suas posses. Não haviam muitas reclamações a serem feitas de tão bela moça.
- Meu, tá chovendo de novo. São Paulo vai encher que nem quinta feira, ô cidadezinha, viu? - foi a escolha dele para o começo de conversa.
Ela assentiu com a cabeça.
Sabia que era um péssimo início, pensou. Ela é tão bonita que tá atrapalhando minhas idéias, droga.
Talvez uma nova tentativa? Vou dar um tempo antes, ler um pouco, quem sabe até ELA não puxa conversa? Mexe na mochila, tira o Saramago e a Caros Amigos. Folheia um pouco a revista, lê alguns artigos, a fecha e lê um pouco do livro.
É, aparentemente não vai ser iniciada por ela a conversa.
Mas que gelo esse ônibus, acho que vou desligar o ar-condicionado.
- Tá frio, né? Quer que desligue o ar-condicionado?
Ela fez que não precisava com a cabeça e reforçou com a mão, apontando o edredom que estava aos pés dela.
Ok. Ela é muda, definitivamente. Só pode ser. Deus é um brincalhão mesmo, sarcasticozinho sacana. Nunca acontece comigo e quando acontece, a menina é muda!
Bom, talvez seja exagero de minha parte. Talvez devesse tentar uma abordagem mais direta, não há nada de errado com isso... perguntar o nome, o que faz. Uma conversa normal.
Ele respira fundo, decidido. Vira para a companheira de viagem, pronto para iniciar a conversa.
- Ela tá dormindo! AGORA que eu tinha tomado coragem, sem comentários. - murmurou nervoso. - Ah, isso não fica assim. Agora que comecei, vou até o fim.
Maquinava várias maneiras de acordar a garota sem parecer um louco ou pior, um desesperado.
Ficou entre duas possibilidades, um esbarrão semi-casual ou a queda completamente involuntária do celular.
Optou pelo celular. Cuidadosamente, esticou o braço e sem dó, abriu a mão onde estava o celular. Ruidosamente ele caiu e quicou. Uma pequena inquietação nas poltronas adjacentes.
A vizinha de banco se mexe, abre os olhos.
- Acordei você? Perdão.
- Imagine, eu não tava conseguindo dormir. Você também não consegue dormir em ônibus?
Ótimo, ela fala. E puxou conversa ainda por cima, beleza.
- Olha, antigamente eu dormia com muita facilidade só que de uns tempos pra cá, inexplicavelmente, não consigo. Estranho, né? - que conversinha besta essa minha, pensou ele.
- Arrã.
Silêncio constrangedor.
- Já te vi lá na faculdade, sabia? - disse a moça.
Nossa, ela já me viu lá. Como eu nunca vi essa loira é que eu não entendo.
- É mesmo? Mas que mal-educada, hein? Nem deu oi - falou, rindo. - E o que você faz?
- Enfermagem. Você?
Enfermeira? Mas é bom demais pra ser verdade.
- Economia. Ah, você conhece a Andréa do 3º ano?
- Conheço sim. - falou a moça numa voz gélida.
Melhor mudar de assunto, parece que esse não agradou.
- Ah, Tiago. Prazer.
- Patrícia. Todos me chamam de Pati.
Segue-se a típica conversa. Quantos anos, de onde é, etc e tal. Uma mínima química se segue. Invariavelmente, o assunto vai esmorecendo e o momento do silêncio em que a melhor continuação seria um beijo... claro, sendo ele quem é, não acontece.
Pode-se dizer que houve uma 'ligeira' (sendo generoso) indecisão de ambas as partes e um belo momento ficou extremamente constrangedor.
- Ahn, então beleza, né. Acho que vou tentar dormir um pouco, tenho que ir pra aula logo pela manhã.
- Ok, vou dormir também.
Covarde. Arregão. Medroso. Isso que eu sou. A chance que eu espero há anos e não fiz nada, nunca mais reclamo que nunca senta ninguém bonito ao meu lado. O karma provavelmente será sentar do lado de gordos velhos que puxam conversa ininterruptamente e reclamam se você acende a luzinha para ler. Maravilha.
Quer saber? Dane-se. Vou dormir que ganho mais.
Frustrado, encosta na janela imaginando o que poderia ter sido...
****
Desce do ônibus, entra na fila para pegar a mala. Observa conformado Patricia pegar as suas e ir embora.
Me sinto o cachorro correndo atrás da lebre, destinado a nunca agarrá-la.
Assusta-se com um leve toque no ombro. Era ela... mas o que poderia querer...?!
Os outros passageiros vêem com curiosidade a garota beijando o surpreso (e extasiado rapaz).
- Mas... mas....
- Shhhh. Você falou de menos quando precisava falar, agora continua errando no timing. - Dá-lhe mais um beijo, agora mais ao estilo carinhoso. Escreve o telefone com batom no punho do rapaz.
Despede-se.
Isso aconteceu mesmo??? Belisca-se várias vezes, imaginando o que falar quando chegasse à faculdade.
A parte do batom era chave. A de quem tomou a iniciativa, nem tanto.
Pegou a bagagem, tomou um o rumo de casa. Com um sorriso irrepreensível no rosto.
****
Uma outra viagem de ônibus ou Uma Viagem de Ônibus, versão do diretor, em breve, neste bat-canal.
Três anos e meio depois, depois de 40 ou 50 viagens de horas e horas, ele sentara-se ao lado de uma mulher bonita, bonita não, linda, num ônibus.
Nesta altura ele já estava resignado a agüentar velhos malcheirosos, velhinhas algo babonas e gordinhos que não cabendo na própria poltrona usavam a poltrona vizinha como assento.
Depois de tão longo tempo de frustrações ele nem esperava mais nada. Quando aquela magnífica loura passou por ele no corredor, ele se contentou apenas em admirá-la, nem cogitou a possibilidade dela sentar ao seu lado. Seria bom demais para ser verdade.
Estava sentado quando a viu passar. Depois do motorista dar as instruções de praxe, sentiu-se feliz por não haver ninguém ao seu lado no banco. Uma viagem espaçosa, pensou.
Qual não foi sua surpresa quando a garota que havia atiçado a imaginação dos passageiros do sexo masculino passou por ele novamente, foi até a frente do ônibus, pegou um copo d'água e ao voltar, sentou-se ao seu lado.
Devia estar no banheiro, conjecturou.
Porém a questão do momento era: o que fazer. Depois de tantas expectativas o momento havia chegado. Desafortunadamente não tinha nada preparado para a ocasião. Teria que improvisar.
Não era um mestre da arte da corte mas também não era um novato, tinha suas armas.
Antes de iniciar o approach observou bem a moça. Loura, olhos castanhos, nariz um tanto arrebitado, lábios à la Jolie. Usava uma blusa branca decotada que valorizava suas posses. Não haviam muitas reclamações a serem feitas de tão bela moça.
- Meu, tá chovendo de novo. São Paulo vai encher que nem quinta feira, ô cidadezinha, viu? - foi a escolha dele para o começo de conversa.
Ela assentiu com a cabeça.
Sabia que era um péssimo início, pensou. Ela é tão bonita que tá atrapalhando minhas idéias, droga.
Talvez uma nova tentativa? Vou dar um tempo antes, ler um pouco, quem sabe até ELA não puxa conversa? Mexe na mochila, tira o Saramago e a Caros Amigos. Folheia um pouco a revista, lê alguns artigos, a fecha e lê um pouco do livro.
É, aparentemente não vai ser iniciada por ela a conversa.
Mas que gelo esse ônibus, acho que vou desligar o ar-condicionado.
- Tá frio, né? Quer que desligue o ar-condicionado?
Ela fez que não precisava com a cabeça e reforçou com a mão, apontando o edredom que estava aos pés dela.
Ok. Ela é muda, definitivamente. Só pode ser. Deus é um brincalhão mesmo, sarcasticozinho sacana. Nunca acontece comigo e quando acontece, a menina é muda!
Bom, talvez seja exagero de minha parte. Talvez devesse tentar uma abordagem mais direta, não há nada de errado com isso... perguntar o nome, o que faz. Uma conversa normal.
Ele respira fundo, decidido. Vira para a companheira de viagem, pronto para iniciar a conversa.
- Ela tá dormindo! AGORA que eu tinha tomado coragem, sem comentários. - murmurou nervoso. - Ah, isso não fica assim. Agora que comecei, vou até o fim.
Maquinava várias maneiras de acordar a garota sem parecer um louco ou pior, um desesperado.
Ficou entre duas possibilidades, um esbarrão semi-casual ou a queda completamente involuntária do celular.
Optou pelo celular. Cuidadosamente, esticou o braço e sem dó, abriu a mão onde estava o celular. Ruidosamente ele caiu e quicou. Uma pequena inquietação nas poltronas adjacentes.
A vizinha de banco se mexe, abre os olhos.
- Acordei você? Perdão.
- Imagine, eu não tava conseguindo dormir. Você também não consegue dormir em ônibus?
Ótimo, ela fala. E puxou conversa ainda por cima, beleza.
- Olha, antigamente eu dormia com muita facilidade só que de uns tempos pra cá, inexplicavelmente, não consigo. Estranho, né? - que conversinha besta essa minha, pensou ele.
- Arrã.
Silêncio constrangedor.
- Já te vi lá na faculdade, sabia? - disse a moça.
Nossa, ela já me viu lá. Como eu nunca vi essa loira é que eu não entendo.
- É mesmo? Mas que mal-educada, hein? Nem deu oi - falou, rindo. - E o que você faz?
- Enfermagem. Você?
Enfermeira? Mas é bom demais pra ser verdade.
- Economia. Ah, você conhece a Andréa do 3º ano?
- Conheço sim. - falou a moça numa voz gélida.
Melhor mudar de assunto, parece que esse não agradou.
- Ah, Tiago. Prazer.
- Patrícia. Todos me chamam de Pati.
Segue-se a típica conversa. Quantos anos, de onde é, etc e tal. Uma mínima química se segue. Invariavelmente, o assunto vai esmorecendo e o momento do silêncio em que a melhor continuação seria um beijo... claro, sendo ele quem é, não acontece.
Pode-se dizer que houve uma 'ligeira' (sendo generoso) indecisão de ambas as partes e um belo momento ficou extremamente constrangedor.
- Ahn, então beleza, né. Acho que vou tentar dormir um pouco, tenho que ir pra aula logo pela manhã.
- Ok, vou dormir também.
Covarde. Arregão. Medroso. Isso que eu sou. A chance que eu espero há anos e não fiz nada, nunca mais reclamo que nunca senta ninguém bonito ao meu lado. O karma provavelmente será sentar do lado de gordos velhos que puxam conversa ininterruptamente e reclamam se você acende a luzinha para ler. Maravilha.
Quer saber? Dane-se. Vou dormir que ganho mais.
Frustrado, encosta na janela imaginando o que poderia ter sido...
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Desce do ônibus, entra na fila para pegar a mala. Observa conformado Patricia pegar as suas e ir embora.
Me sinto o cachorro correndo atrás da lebre, destinado a nunca agarrá-la.
Assusta-se com um leve toque no ombro. Era ela... mas o que poderia querer...?!
Os outros passageiros vêem com curiosidade a garota beijando o surpreso (e extasiado rapaz).
- Mas... mas....
- Shhhh. Você falou de menos quando precisava falar, agora continua errando no timing. - Dá-lhe mais um beijo, agora mais ao estilo carinhoso. Escreve o telefone com batom no punho do rapaz.
Despede-se.
Isso aconteceu mesmo??? Belisca-se várias vezes, imaginando o que falar quando chegasse à faculdade.
A parte do batom era chave. A de quem tomou a iniciativa, nem tanto.
Pegou a bagagem, tomou um o rumo de casa. Com um sorriso irrepreensível no rosto.
****
Uma outra viagem de ônibus ou Uma Viagem de Ônibus, versão do diretor, em breve, neste bat-canal.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Em Paz

'How 'bout how good it feels to finally forgive you'.
****
Dois anos haviam se passado. Nem de longe parecia tanto... para ele a ferida era recente, sentia ainda o sangue escorrendo. Lembrava nitidamente do dia em que recebera a fatídica notícia. Nunca esperaria, pelo menos não deles. Dela talvez, mas dele? Um baque duro, do qual ele tinha se recuperado (será mesmo?) a duras penas.
O amigo ainda ligava, religiosamente, todo domingo, convidando para um café ou uma cerveja, o que ele quisesse. Nunca aceitava. Em verdade, também não negava, apenas dizia que combinariam. Nunca deu o braço a torcer de ligar. Só de lembrar quantas vezes o amigo pedira para que o entendesse e o perdoasse. Teimosamente, como era sua característica, insistira na dureza de espírito.
Dessa maneira, se afastou de todos. Raramente saía agora. Saía para comer algo, alugar seus filmes velhos e no máximo dar uma caminhada no parque. Concentrava-se mais do que nunca no trabalho que agora o absorvia de uma maneira impensável para alguém que o vira dois anos antes.
Fumava mais, bebia menos. A bebida por sair menos, talvez. Mesmo que de vez em quando abrisse um vinhozinho para ver algum Hitchcock menor. Morar longe da família tem suas vantagens, principalmente na hora de esconder algo. Facílimo se o desejar.
****
Havia terminado os cálculos para aquela estrutura que seu chefe estava cobrando desde segunda. Estaria tranqüilo por alguns dias no serviço agora. Permitiu-se um sorrisinho de satisfação ao pensar que talvez pudesse ligar pra alguém da velha turma, tomar uma cervejinha. Um prazer mundano, mudando um pouco sua solitária rotina.
De bom humor, juntou as coisas, limpou a mesa para o fim de semana. Pegou o carro, saiu.
Ligou o rádio, Beatles ao fundo. Uma sensação leve o dominava. Abriu os vidros, vento no cabelo, praticamente uma música de Roberto Carlos.
Porém, nunca é tão simples, pelo menos não para ele. A alguns quarteirões de sua casa viu os dois andando despreocupadamente na rua, rindo de alguma coisa provavelmente sem importância. O típico casal apaixonado. Aquilo o abalou profundamente, quando se está 'desarmado' o golpe tende a ser mais forte.
Esteve muito tempo de guarda levantada e justamente no dia em que havia se dado uma chance de relaxar, via aquilo. Doía mais pelo fato de ter ouvido rumores dos dois não estarem mais juntos. Um prazer culpado apoderara-se dele quando ouviu o tal rumor, obviamente errôneo.
Estacionou o carro, inseguro do que fazer. Ir para casa e continuar com sua rotina? Ignorar o acontecimento e seguir com o plano de fazer algo diferente? Claro, optou por nenhum. Saiu do carro, rumou para onde estava o casal.
Surpresos com a presença os dois fizeram menção de conversar, saudaram-no. Ignorou-os, e de maneira simbólica (claro, inútil) passou entre os dois, 'quebrando' o elo feito pelas mãos entrelaçadas.
Rumou ao primeiro bar que encontrou. Pediu o amigo das horas difíceis, Johnnie e assistiu o líquido bronze fluir até o copo com gelo.
Um cigarro. Dois. Amaldiçoava-se por ter se dado ao luxo de ficar desarmado. Achava, como todos que sofrem, que sua dor era maior que a que qualquer um já havia sentido. Uma grande bobagem se me permitem opinar. A natureza da dor é ser ímpar, cada um sofrendo à sua maneira, não há termo de comparação.
Terminou o copo. Olhou para a rua, a chuva acabara de começar.
- Pior que estou, não dá. - pensou. Pagou, saiu para a rua.
Andou alguns metros debaixo da água que não cessava de cair. Pensando em como havia chegado até ali.
Parou em frente a uma loja de eletrodomésticos, uma música tocava. Ouviu um trecho.
'How 'bout how good it feels to finally forgive you'. Aquilo caiu como uma granada.
Pensou em quanto tempo guardava aquelas coisas ruins dentro de si, o amargo, a raiva, a frustração. Talvez tenham errado com ele, como se ele não houvesse errado também inúmeras vezes. Pessoas tão especiais que significavam tudo para ele, trancou-as para fora de si.
Lembrou de quantas chances teve de finalmente limpar o fel, todas insucessos.
E chorou. Finalmente chorou, dois anos depois daquela última lágrima ter escorrido por seu rosto. A água da chuva misturada com o sal das lágrimas, purificando-o, limpando-o de tudo o que estava guardado, bem lá dentro, toda a raiva, ódio, tristeza, frustração.
Pegou o celular, apertando as teclas bem devagar como se escrevesse um condoída confissão. Esperou ser atendido.
- Alô.
- Oi, cara. Tudo bem?
- Tudo beleza, Fino. E você?
- Certinho. Só você me chama de Fino. Sabe que odeio.
- Por isso que o chamo assim, panaca. Aceito aquele café agora. Tá de pé ainda?
- Sempre. Eu passo aí ou você passa aqui?
- Passo aí, até já.
- Ok.
Desligaram.
Rumou para a casa que não visitava há dois anos. De corpo e principalmente alma lavados.
Enfim, livre.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Seguro Morreu de Velho
Apart-hotel. Santos. Um casal deitado na cama. Ele, gordo, quarentão, baixinho, careca, bonachão. Ela, ruiva (artificial, claro), visivelmente em forma, não muito alta, rosto não muito marcante, comum.
- Ai amor, tô muito feliz que você largou dela e comprou esse apartamento pra gente. Olha que a Tatá falou pra eu não acreditar, que você era um pilantra e estava me enrolando. Queria ver a cara dela agora.
- Que bom que você está feliz, Didi. Fiz tudo isso por você.
- Oooun, que lindo. Pena que você está ficando tanto tempo em São Paulo, né amor?
- Você sabe que não posso deixar a empresa só com o Carlos Augusto, tenho que supervisionar as coisas. Afinal, ela pagou por tudo isto aqui.
- Eu sei querido. Me beija.
Beijam-se longamente. Em pouco tempo estão nus.
Um celular toca.
- Querido, acho que é o seu.
Claramente entretido em outras coisas, ele diz:
- Mmmm, deixa tocar, depois eu ligo de volta.
Didi, enrubescida e ofegante: - Espera Aristides, vou ver quem é... dependendo você atende.
Aristides resignado, assente.
- É o Carlos Augusto, amor.
Frustrado ele pega o telefone. - Tá, vou atender ali na sala... não quero que assuntos de escritório estraguem o clima, tá bom, querida?
- Tá.
Aristides põe o roupão, pega o celular e vai pra sala.
Atende.
- Oi, querida. Tudo bem com as crianças?
Abençoado seja o dia que trocou o nome da mulher pelo de Carlos Augusto.
Afinal, seguro morreu de velho.
- Ai amor, tô muito feliz que você largou dela e comprou esse apartamento pra gente. Olha que a Tatá falou pra eu não acreditar, que você era um pilantra e estava me enrolando. Queria ver a cara dela agora.
- Que bom que você está feliz, Didi. Fiz tudo isso por você.
- Oooun, que lindo. Pena que você está ficando tanto tempo em São Paulo, né amor?
- Você sabe que não posso deixar a empresa só com o Carlos Augusto, tenho que supervisionar as coisas. Afinal, ela pagou por tudo isto aqui.
- Eu sei querido. Me beija.
Beijam-se longamente. Em pouco tempo estão nus.
Um celular toca.
- Querido, acho que é o seu.
Claramente entretido em outras coisas, ele diz:
- Mmmm, deixa tocar, depois eu ligo de volta.
Didi, enrubescida e ofegante: - Espera Aristides, vou ver quem é... dependendo você atende.
Aristides resignado, assente.
- É o Carlos Augusto, amor.
Frustrado ele pega o telefone. - Tá, vou atender ali na sala... não quero que assuntos de escritório estraguem o clima, tá bom, querida?
- Tá.
Aristides põe o roupão, pega o celular e vai pra sala.
Atende.
- Oi, querida. Tudo bem com as crianças?
Abençoado seja o dia que trocou o nome da mulher pelo de Carlos Augusto.
Afinal, seguro morreu de velho.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Décimo Sétimo Andar
São Paulo, Avenida Faria Lima. Um edifício de escritórios.
Décimo sétimo andar. Salas fechadas com chefes, sub-chefes, gerentes, sub-gerentes jogando paciência e abrindo emails, rodeiam vários cubículos onde os que tentam jogar paciência e ler emails são
repreendidos pelos sanguessugas que sobem na empresa às custas do trabalhos dos cubiculares.
Miremos um cubículo em especial. Algo desarrumado, uma cadeira já com um braço bambo, várias lapiseiras sobre a mesa (nenhuma com grafite), algumas canetas espalhadas (duas no chão), uma foto de um rapaz com sua esposa, talvez? Ah, e uma bandeira do Atlético Paranaense.
Atlético Paranaense?! É, qual o problema de um paranaense radicado em São Paulo? Nenhum, só é estranho, pensa o leitor, com os seus botões (seriam teclas hoje em dia?).
Do corredor vem um esbelto rapaz, passos fáceis, camisa um tanto amarrotada, cabelos mais longos que a média, encaracolados, tez morena, nariz aquilino com as bochechas um tanto quanto salientes.
Senta na cadeira do cubículo previamente por nós observado.
Desdenhosamente folheia um relatório de longas noventa páginas. Onze horas ainda! - pensa o rapaz. - E eu não comi nada pela manhã, muito inteligente de minha parte.
De súbito, pelo canto do olho, vê um de seus seis chefes/superiores andando em volta dos cubículos. O pânico se apossa de seu corpo. Começa a rabiscar furiosamente o relatório, como se entendesse algo daquilo.
Com o fingimento a todo vapor, passa às suas costas um inchado homem, olhos puxados, terno de segunda linha (impecável, todavia), barba hirsuta, óculos grossos que lhe davam um certo ar venerável.
André (nosso querido torcedor do Furacão) respirou aliviado após a passagem do Suzucão, como este chefe era 'carinhosamente' chamado pelo pessoal do setor de aquisições (tinha bochechas buldoguísticas por assim dizer).
Não tão rápido. Alguns metros depois do cubículo de André, nosso saudoso Suzucão deu meia-volta como que percebendo a repentina mudança de postura de seu subordinado.
- Eu não acredito. Cacete! - resmungou entre dentes ao perceber o retorno da rotunda figura.
- Olá, Sr. Garcia. Como vai aquele DLS que o senhor deveria ter entregue ontem? - indagou o canino chefe, com um desprezo palpável ao pronunciar 'ontem'.
- Olha só, sr. Suzuki, veja bem... eu estava atolado naqueles ofícios que o senhor havia repassado... hã... daí estou meio atrasado e... - André visivelmente estava atrapalhado. Falando a verdade mas de uma maneira não exatamente convincente.
Todos sabemos que é melhor ser convincente que honesto, especialmente num ambiente de trabalho.
- Vamos até a minha sala. - disse imperativamente o Sr. Suzuki.
Alguns olhares curiosos dos cubiculares para aquele estranho casal, Stan Laurel e Al Hardy do 17º andar. Um obeso, desengonçado, com as famosas 'pizzas' sob os braços, seguido de perto por um magrelo de cabelos revoltos e andar de sambista da Lapa.
****
Senta André numa cadeira preta, em frente à mesa de Suzuki. Este último fecha a porta atrás e senta-se na poltrona, de frente pra André.
Entrelaça os dedos e fica com a mão em forma de cunha segurando o queixo (ou seriam queixos?).
Começa.
- O desempenho do senhor neste trimestre está I-NAD-MIS-SÍ-VEL - parecia saborear com um prazer sádico tais palavras. - Sempre chegando atrasado, eu e o Marques já notamos também o tempo que passa ali na salinha do café e também o tempo que fica fingindo que trabalha. Se continuar assim...
- Éééé´... sabe como é né sr. Suzucão... digo, Suzuki. Ando tendo problemas em casa...- emendou com uma risadinha nervosa - ... meu filho anda doente...
- NÃO INTERESSA! - interrompeu o volumoso. - E NÃO olhe para mim com essa cara de indignação, você deveria estar agradecido pela minha paciência. Muitos outros já estariam na rua! Estou sendo demasiadamente paciente. Agora suma daqui e vá fazer seus afazeres. Aquele DLS até o fim do expediente na minha mesa ou nem precisa voltar segunda feira.
André levanta.
****
André ao levantar, visualiza o abridor de cartas, reluzindo convidativamente. Com um golpe certeiro na jugular, cala para sempre o buldogue humano. Abre a porta. Fecha a porta.
Senta em sua mesa, abre o site do globoesporte. Meio dia vai embora para nunca mais ser visto.
****
André levanta. Respira fundo, buscando canalizar o ódio.
- Olha aqui, meu querido Suzucão... não vem com ameacinha não ou vou ligar na tua casa e falar pra tua mulher que tu anda pegando o Tato da manutenção, pensa que eu não sei?
- O senhor não pode falar neste tom comi... - interrompido bruscamente por um tapa no rosto, a redonda figura, abaladíssima com a situação, cala-se.
- Se eu for demitido, você pode começar a atravessar a rua olhando BEM para os dois lados, ok? Assim, só uma dica. Sempre cheque também os seus freios, dica de AMIGO. Antes que eu esqueça, sei que o senhor pegou aquele meu parecer mês passado e falou que era seu, não acredito que tenha sido a coisa mais justa. Acho que seria uma boa um aumentozinho antes que eu ligue pro Dr. Tadeu e conte toda essa palhaçada.
- Veja bem, podemos nos acert... - EI! Dá pra parar de bater? - em voz juvenil, reclamou o redondinho.
- Mas eu não falei que era pra fechar o bico? Cara surdo, meu. Então você cuida dessas coisas pra mim, né? Valeu irmão. Xá' só eu tomar um cafezinho aqui que já vou lá pro meu paciência spider.
Põe o copo na mesa, abre BEM a garrafa térmica e começa a despejar o conteúdo. 10% por cento no copo. Uma comparação apropriada ao que se tornou mesa seria aqueles vazamentos de óleo no Pacífico.
- Puuuutz, Suzukão! Desculpe hein! Eu limpo, xá' comigo. - Arranca metade da folhagem de um bonsai próximo e esfrega nem um pouco cuidadosamente na mesa.
- MEU BONSAI!!!
- Ah, você gostava disso aqui? Sabia não... segure aí. - falou despreocupadamente o rapaz, jogando a folhagem lambuzada de café no peito de Suzucão.
Sai, pisando macio.
Abre a porta. Fecha a porta.
Triunfante.
****
André levanta, cabisbaixo, pensando em todas as coisas que queria ter feito àquele gordinho folgado.
Abre a porta. Fecha a porta.
Ruma a seu cubículo, resignado.
- Se eu não precisasse desse emprego...
Décimo sétimo andar. Salas fechadas com chefes, sub-chefes, gerentes, sub-gerentes jogando paciência e abrindo emails, rodeiam vários cubículos onde os que tentam jogar paciência e ler emails são
repreendidos pelos sanguessugas que sobem na empresa às custas do trabalhos dos cubiculares.
Miremos um cubículo em especial. Algo desarrumado, uma cadeira já com um braço bambo, várias lapiseiras sobre a mesa (nenhuma com grafite), algumas canetas espalhadas (duas no chão), uma foto de um rapaz com sua esposa, talvez? Ah, e uma bandeira do Atlético Paranaense.
Atlético Paranaense?! É, qual o problema de um paranaense radicado em São Paulo? Nenhum, só é estranho, pensa o leitor, com os seus botões (seriam teclas hoje em dia?).
Do corredor vem um esbelto rapaz, passos fáceis, camisa um tanto amarrotada, cabelos mais longos que a média, encaracolados, tez morena, nariz aquilino com as bochechas um tanto quanto salientes.
Senta na cadeira do cubículo previamente por nós observado.
Desdenhosamente folheia um relatório de longas noventa páginas. Onze horas ainda! - pensa o rapaz. - E eu não comi nada pela manhã, muito inteligente de minha parte.
De súbito, pelo canto do olho, vê um de seus seis chefes/superiores andando em volta dos cubículos. O pânico se apossa de seu corpo. Começa a rabiscar furiosamente o relatório, como se entendesse algo daquilo.
Com o fingimento a todo vapor, passa às suas costas um inchado homem, olhos puxados, terno de segunda linha (impecável, todavia), barba hirsuta, óculos grossos que lhe davam um certo ar venerável.
André (nosso querido torcedor do Furacão) respirou aliviado após a passagem do Suzucão, como este chefe era 'carinhosamente' chamado pelo pessoal do setor de aquisições (tinha bochechas buldoguísticas por assim dizer).
Não tão rápido. Alguns metros depois do cubículo de André, nosso saudoso Suzucão deu meia-volta como que percebendo a repentina mudança de postura de seu subordinado.
- Eu não acredito. Cacete! - resmungou entre dentes ao perceber o retorno da rotunda figura.
- Olá, Sr. Garcia. Como vai aquele DLS que o senhor deveria ter entregue ontem? - indagou o canino chefe, com um desprezo palpável ao pronunciar 'ontem'.
- Olha só, sr. Suzuki, veja bem... eu estava atolado naqueles ofícios que o senhor havia repassado... hã... daí estou meio atrasado e... - André visivelmente estava atrapalhado. Falando a verdade mas de uma maneira não exatamente convincente.
Todos sabemos que é melhor ser convincente que honesto, especialmente num ambiente de trabalho.
- Vamos até a minha sala. - disse imperativamente o Sr. Suzuki.
Alguns olhares curiosos dos cubiculares para aquele estranho casal, Stan Laurel e Al Hardy do 17º andar. Um obeso, desengonçado, com as famosas 'pizzas' sob os braços, seguido de perto por um magrelo de cabelos revoltos e andar de sambista da Lapa.
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Senta André numa cadeira preta, em frente à mesa de Suzuki. Este último fecha a porta atrás e senta-se na poltrona, de frente pra André.
Entrelaça os dedos e fica com a mão em forma de cunha segurando o queixo (ou seriam queixos?).
Começa.
- O desempenho do senhor neste trimestre está I-NAD-MIS-SÍ-VEL - parecia saborear com um prazer sádico tais palavras. - Sempre chegando atrasado, eu e o Marques já notamos também o tempo que passa ali na salinha do café e também o tempo que fica fingindo que trabalha. Se continuar assim...
- Éééé´... sabe como é né sr. Suzucão... digo, Suzuki. Ando tendo problemas em casa...- emendou com uma risadinha nervosa - ... meu filho anda doente...
- NÃO INTERESSA! - interrompeu o volumoso. - E NÃO olhe para mim com essa cara de indignação, você deveria estar agradecido pela minha paciência. Muitos outros já estariam na rua! Estou sendo demasiadamente paciente. Agora suma daqui e vá fazer seus afazeres. Aquele DLS até o fim do expediente na minha mesa ou nem precisa voltar segunda feira.
André levanta.
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André ao levantar, visualiza o abridor de cartas, reluzindo convidativamente. Com um golpe certeiro na jugular, cala para sempre o buldogue humano. Abre a porta. Fecha a porta.
Senta em sua mesa, abre o site do globoesporte. Meio dia vai embora para nunca mais ser visto.
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André levanta. Respira fundo, buscando canalizar o ódio.
- Olha aqui, meu querido Suzucão... não vem com ameacinha não ou vou ligar na tua casa e falar pra tua mulher que tu anda pegando o Tato da manutenção, pensa que eu não sei?
- O senhor não pode falar neste tom comi... - interrompido bruscamente por um tapa no rosto, a redonda figura, abaladíssima com a situação, cala-se.
- Se eu for demitido, você pode começar a atravessar a rua olhando BEM para os dois lados, ok? Assim, só uma dica. Sempre cheque também os seus freios, dica de AMIGO. Antes que eu esqueça, sei que o senhor pegou aquele meu parecer mês passado e falou que era seu, não acredito que tenha sido a coisa mais justa. Acho que seria uma boa um aumentozinho antes que eu ligue pro Dr. Tadeu e conte toda essa palhaçada.
- Veja bem, podemos nos acert... - EI! Dá pra parar de bater? - em voz juvenil, reclamou o redondinho.
- Mas eu não falei que era pra fechar o bico? Cara surdo, meu. Então você cuida dessas coisas pra mim, né? Valeu irmão. Xá' só eu tomar um cafezinho aqui que já vou lá pro meu paciência spider.
Põe o copo na mesa, abre BEM a garrafa térmica e começa a despejar o conteúdo. 10% por cento no copo. Uma comparação apropriada ao que se tornou mesa seria aqueles vazamentos de óleo no Pacífico.
- Puuuutz, Suzukão! Desculpe hein! Eu limpo, xá' comigo. - Arranca metade da folhagem de um bonsai próximo e esfrega nem um pouco cuidadosamente na mesa.
- MEU BONSAI!!!
- Ah, você gostava disso aqui? Sabia não... segure aí. - falou despreocupadamente o rapaz, jogando a folhagem lambuzada de café no peito de Suzucão.
Sai, pisando macio.
Abre a porta. Fecha a porta.
Triunfante.
****
André levanta, cabisbaixo, pensando em todas as coisas que queria ter feito àquele gordinho folgado.
Abre a porta. Fecha a porta.
Ruma a seu cubículo, resignado.
- Se eu não precisasse desse emprego...
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